Por Delson Luis Ribeiro e Colaboração de Rildo Luiz Ferreira
Adquirir um pote de manteiga ou qualquer outro produto de mercado há tempos se tornou extremamente fácil e rotineiro. Mas lá pelos idos das décadas de 1920 e 1930 não era bem assim.
Durante um bate-papo descontraído com o senhor Cauby Ferreira (hoje com 95 anos), em sua residência, nossa equipe pôde ouvir dele o quanto era trabalhoso produzir o essencial alimento numa época em que o município de Campos Gerais se tornou um dos principais exportadores de manteiga da região. O estado do Rio de Janeiro consumia o nosso produto, transportado via estrada de ferro.
Segundo Cauby, os “cremeiros”, como eram chamados, viajavam de Campos Gerais para longe, montados nos lombos de burros para buscar grande quantidade do creme extraído do leite por meio de processo de separação de creme e do soro, daí a origem do nome do ofício – “cremeiro: aquele que transportava o creme extraído do leite”.
Do insumo trazido, parte ia para a cidade vizinha de Fama e a outra para a fábrica na fazenda do Carlos Caiafa – conhecida atualmente por Fazenda do Cervo.
As viagens em burros eram necessárias em função do nosso município não produzir a quantidade de nata demandada na fabricação, motivo que obrigava os fabricantes recorrerem a fazendas localizadas nos municípios de Ilícinea e Guapé, dentre outras fornecedoras da principal matéria-prima.
Com tudo preparado no dia anterior à viagem, os cremeiros acordavam no meio da madrugada, arreavam seus burros, ajeitando neles dois latões de leite vazios, um de cada lado do animal, e partiam pela estrada rumo ao seu destino.
Cauby citou como uns dos principais transportadores do creme, na época, o João Neca e o Aristides Brito. A hoje Fazenda do Cervo foi referência regional na produção de manteiga, frango, arroz e café, dentre outros alimentos. Essa propriedade foi em seguida comprada pelo ex-prefeito Davi Pereira Maia e, finalmente, por Urbano Miranda.
A concentração de carros de boi nessa fazenda era intensa, compondo o principal meio de transporte agrícola para escoamento da produção. Existiam pouquíssimos caminhões em Campos Gerais, cerca de três ou quatro, naquelas décadas de 1920 e 1930.
Cauby lembra ainda que os carros de boi só podiam transitar na cidade silenciosamente (“não podiam cantar”), estando os carreiros sujeitos a multa de vinte mil-réis, caso infringissem a regra.
O tráfego dos carros de boi era controlado a partir das entradas principais, com porteiras instaladas no Baixão, outra na saída para Campo do Meio e um mata-burro onde foi o Posto Shell do Tavinho.