Por Delson Luis Ribeiro
Professores, profissionais liberais, estudantes, lideranças religiosas e a Associação Comercial foram os principais influenciadores no embargo à instalação da Companhia Andrade Gutierrez em solo campos-geraiense, que visava, na época, à exploração de um tipo raro de granito na Serra do Paraiso. Relembre ou conheça o “Movimento Pró-Serra”, ocorrido há 31 anos.


O Brasil acabava de sediar a ECO 92 – Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro – importante convenção que reuniu chefes de Estado e representantes de 179 países, organismos internacionais, milhares de organizações não governamentais e a participação direta da população.
Coincidência ou não, poucos meses após a realização do evento internacional, alguns cidadãos ao ficarem sabendo da proposta de exploração do minério em solo local, mobilizaram-se para combater a instalação da companhia multinacional.


O Documentário Campos Gerais teve acesso a cópias de documentos e a depoimentos reveladores sobre o movimento.


Na época, a empresa reivindicava a exploração de uma área de 533 hectares (200 alqueires) de terra, sendo, destes, um espaço exclusivo para a extração de uma rocha numa área total de 20 alqueires, por um período de 15 anos. Em troca, prometia a geração de 35 novos empregos e o aumento de arrecadação de CR$ 80.000.000,00 mensais. Não é possível afirmar se esse valor dizia respeito ao ICMS, ou somente à arrecadação municipal. De qualquer forma, a empresa dependia da autorização dos poderes Executivo e Legislativo, através da liberação de alvará para o início das atividades, fato que não veio a ser concretizado, devido a um movimento contrário, encabeçado pela sociedade civil organizada.
Tal mobilização buscou convencer a população de que o volume de impostos e de mão de obra gerados prometidos, seriam inexpressivos, se considerados os impactos ambientais que viriam a ser causados, conforme trecho de documento elaborado pelos organizadores do movimento:
“A quantidade de empregos e a arrecadação não são expressivos para o Município. Em termos ecológicos, será uma agressão para a cidade, pois a nossa Serra se forma como um escudo de proteção ambiental, é um ponto de referência geográfica e meteorológico, além de abrigar animais em extinção e mananciais de água puríssima, sem contar ainda a sua beleza majestosa e incomum.”
Com base nestes argumentos foram realizados um abaixo assinado e reuniões, envolvendo o corpo legislativo, representantes da empresa e do movimento, com o propósito de impedir a realização de pesquisas e a exploração do solo campos-geraiense.
Segundo o jornalista Vítor Lúcio Maciel, o Pró-Serra contou também com o apoio de veículos de comunicação tradicionais da nossa região, inclusive de jornais escritos como o Jornal dos Lagos e o Jornal Sul Mineiro, que publicaram matérias contrárias à exploração de minério da serra de Campos Gerais.
A iniciativa deu certo e a empresa desistiu de seguir com o projeto, graças a um conjunto de ações desencadeadas pelo “Movimento Pró-Serra”, como a realização de manifestações públicas por meio de passeatas e cavalgadas ecológicas, com grande participação popular e a viagem de uma comissão até a cidade de Candeias, onde foram ouvidos moradores e autoridades, que se manifestaram contrários à liberação da mineração ocorrida anos atrás naquele município. Alegaram que o mesmo vinha sofrendo grande devastação ambiental, desde a instalação da primeira mineradora.
Também foram promovidas várias palestras abertas ao público na sede Mariana, proferidas por professores de faculdades da região, apontando inconsistências no EIA-RIMA (Estudo de Impacto Ambiental – Relatório de Impacto Ambiental) apresentado pela Andrade Gutierrez Granito S.A.
Outra ação considerável foi o fato dos organizadores do movimento terem conseguido trazer pesquisadores da UNICAMP (Universidade de Campinas), dando grande contribuição, com estudos sobre o projeto.
Como ação final impeditiva, foram colhidas mais de 1.800 assinaturas (10,2% do eleitorado local) através de um abaixo-assinado que impossibilitou a extração de granito em Campos Gerais.
Finalmente, este movimento resultou também no tombamento de parte das serras de Campos Gerais, do Macuco e do Paraiso, através da Lei nº 1.671/93 promulgada em 18 de agosto de 1993, objetivando a proteção do patrimônio paisagístico, a biodiversidade e os mananciais presentes numa altitude acima de 900 m.


A área pleiteada pela empresa fica no lado anterior direito à estátua do Cristo Redentor. Hoje esta área está tomada de cafezais plantados junto a nascentes de água. Seria essa mais uma causa ambiental a ser cobrada de nossos representantes do Legislativo e dos órgãos de proteção ambiental competentes?




