Por Delson Luis Ribeiro
Alguns agricultores familiares ainda mantêm a tradição de adestrar animais para conduzir seus quase encostados e raríssimos carros de boi, mas prática como esta é vista quase somente em eventos agropecuários ou durante as festas de peão.
De acordo com José Raimundo de Lima, médico veterinário e grande incentivador de eventos da cultura sertaneja, existem pouco mais de cem juntas de carros de boi atualmente em Campos Gerais.
Para José Raimundo, “Campos Gerais conseguiu preservar parte desta cultura, mas é preciso mais incentivo e valorização deste tipo de iniciativa”.
O Documentário Campos Gerais recebeu do professor Luiz Miguel da Silva uma bonita narrativa, através da qual busca-se rememorar tempos mais distantes desse ofício no município, conforme transcrito a seguir.
“Os carros de boi foram o meio de transporte mais usado em Campos Gerais durante a primeira metade do século XX. Caminhão e outras formas de transportes ainda não existiam por aqui. Para que os deslocamentos fluíssem, os carreiros costumavam carregar ferramentas para desatolar seus carros, quando necessário. Nessa época o consumo de lenha era muito grande, porque ainda não havia fogão a gás.
Duas misturas eram muito usadas nos carros, colocadas em dois vasilhames, geralmente feitos de chifre, pendurados nas chedas (pranchas laterais), um com azeite ou óleo de mamona para o carro “cantar” e outro, com sabão de cinza para o carro parar de “cantar”.
Este procedimento era necessário para que o “carro” ao adentrar a cidade não perturbasse as pessoas doentes e idosas com seu barulho estridente. Na época os enfermos permaneciam em suas casas, onde recebiam o tratamento.
Naqueles tempos, as matas eram virgens e existiam plantas venenosas como a “erva de rato”, altamente letal para os bovinos. Para que os animais não fossem envenenados, pequenos balaios eram colocados nos focinho dos bois. Vale lembrar que hoje quem está com máscara somos nós.
Os carros de boi transportavam todo tipo de mercadoria. Em alguns casos era usada uma esteira toda feita de taquara de bambu.
Muitos Carreiros sacrificavam os animais, chegando até a matá-los, quando os bichos se entregavam de tanto cansaço.
Os carros de boi em suas diversas modalidades prestaram relevantes serviços às comunidades. O mesmo podemos dizer dos tropeiros que levavam e traziam mercadorias de longínquas distâncias.
O boi, o burro e o cavalo ajudaram bastante no desenvolvimento do nosso município”.