Revelação inédita sobre a instalação da imagem do Cristo Redentor de Campos Gerais
Por Joaci Pereira Furtado e Introdução: Delson Luis Ribeiro
Independentemente da crença ou do fato de o cidadão ter nascido ou escolhido Campos Gerais para viver, ou ainda de ter residido no município ou não, é fato que a estátua do “Cristo Redentor”, instalada no alto Serra do Paraíso, partiu da iniciativa de uma pessoa “de fora” e tornou-se um dos principais símbolos da Terra.
O Documentário traz importante revelação sobre os fatos que levaram o José Vaz Furtado, o saudoso Dedé da Madeireira Ipê, a liderar a construção da imagem no local, inaugurada em 1978.
Quem conta a seguir sobre este marcante episódio é Joaci Pereira Furtado, filho do próprio idealizador e executor da histórica obra. Joaci é professor universitário e doutor em História pela USP.
“Não sei exatamente como, mas certo dia meu pai teve a ideia de colocar uma imagem do Cristo Redentor no alto da serra de Campos Gerais.
Lembro-me que foi em algum momento depois que ele perdeu a eleição para prefeito, em 1976, pela extinta Arena, numa apertada diferença de 64 votos. No fundo, penso que foi uma forma de ele responder à derrota, depois de disputa muito acirrada, em que não faltaram calúnias (hoje se diz “fake news”), insultos e agressões — como, por exemplo, adeptos do candidato vitorioso estourarem foguetes sobre nossa casa, um dos quais quase atingiu minha mãe, no quintal.
A ideia do Cristo, portanto, penso hoje que foi uma forma de meu pai — um homem que nunca praticou qualquer religião, embora não fosse ateu — se “vingar” da derrota. Ele procurou o então pároco da cidade, monsenhor Teófilo Sáez, que imediatamente tornou-se um entusiasta da ideia, como é de se esperar. Sei que os dois viajaram até Campinas para encomendar a estátua junto à Papaiz, empresa que montou outras tantas similares Brasil a fora.
Enquanto isso, começava a campanha de doações. Em minha memória ficou um caderno, desses escolares, com anotações de pequenas quantias que entregavam lá em casa, em notas amassadas e sofridas, e eram repassadas à Paróquia Nossa Senhora do Carmo, que certamente também recebia donativos para a construção. Às vezes doavam até frango vivo. Afinal, cada fiel dava o que podia.
Quando as peças de concreto armado chegaram para ser montadas, meu pai se deixou fotografar junto a elas. Lembro-me de ele dizer que ninguém teria uma foto ao lado da cabeça do Cristo, como a que ele fez com ela ainda no chão. Bom, ele não viveu até a era das câmeras de celular e drones.


Recordo-me bem da atmosfera festiva no dia da inauguração: 20 de agosto de 1978. Lembro-me da flâmula comemorativa — que, se não me engano, também foi ideia de meu pai. O que mais me impressionou, porém, foi a quantidade de gente escalando a serra, naquele dia, para a missa campal aos pés da estátua. Era tanta gente que se formou uma serpente viva, ligando a cidade à serra. Não me lembro de ter presenciado nada semelhante, enquanto vivi em Campos Gerais.
À noite, na carroceria de um caminhão improvisado como palco, diante da Igreja Matriz, o (hoje octogenário) cantor Sérgio Reis principiou seu show saudando a imagem no alto da serra. Não sei se pela escassez de recursos ou por outro motivo que desconheço, ele pernoitou em nossa casa.
Pouco antes ou pouco depois da inauguração, a estátua ainda foi motivo de alguma tensão política. Pelo menos me lembro vagamente de meu pai dizer qualquer coisa a respeito de uma ameaça da Prefeitura de embargar a obra. O fato, porém, é que finalmente o Cristo Redentor estava lá. Para sempre.
Retenho na lembrança, contudo, e com muita clareza, um detalhe que me parece bem significativo: não sei por que motivo, a placa de inauguração, em granito, não foi fixada na base. Ela ficou encostada lá, solta, até que se partiu. Quanto a essa placa meu pai fez sua única exigência: que seu nome não constasse nela.”
