Geraldo Jorge, um comerciante querido e de sucesso

Por Delson Luis Ribeiro

O fato ocorreu na “Loja do Senhor Geraldo Jorge”, e é através dele que prestamos uma homenagem a esse empresário que foi uma pessoa muito querida pela população campos-geraiense.

A década era a de 1980 e o cliente era José (nome fictício), um jovem à procura de “um par de sapatos para passeio”. Ao entrar na Loja do senhor Geraldo Jorge, o próprio dono o atende, e a ele é solicitado um par de sapatos na medida e na cor desejadas.

Prontamente, Geraldo, muito solícito e agradável, desce das prateleiras umas quatro ou cinco caixas de sapato com as características passadas pelo rapaz, mas os produtos não lhe agradavam.

Então, mais calçados foram apresentados ao cliente, mas sem efeito algum para a decisão da compra. O freguês observava, desconfortável, a boa vontade de Geraldo, mas nenhuma mercadoria o agradava.

O ato repetiu-se exaustivamente, a ponto de se formar uma “montanha” de caixas, deixando o paciente comerciante muito chateado, já que a variedade de calçados da sua loja era uma das maiores da cidade e até da região.

Depois de um bom tempo, o jovem contentou-se com um calçado próximo do seu gosto, tendo decidido sair da loja com ele nos pés, contudo Geraldo não percebeu a intenção do moço, que colocou seus calçados usados na caixa dos sapatos novos, aguardando Geraldo para comunicá-lo de que já estava calçando os sapatos novos.

Geraldo, que era uma daquelas pessoas que possuíam o dom da paciência, mas dessa vez, para a surpresa dos seus funcionários, acabou vacilando naquele atendimento, a ponto de recolher todo o estoque exposto no balcão e dizendo ao cliente, que infelizmente naquela ocasião não seria possível atender à demanda do rapaz.

José, desconcertado, sem saber o que fazer, foi embora com o calçado novinho e brilhante, mas preocupado em pagar o bondoso comerciante.

No dia seguinte, retornou ao estabelecimento para explicar o ocorrido no final daquele atendimento e pagou ao próprio Geraldo, que ainda o bonificou com um sabonete Phebo.

Essa era uma das inúmeras maneiras que Geraldo Jorge usava para agradar a seus clientes, a ponto de brindá-los com algum item da sua perfumaria, até mesmo aqueles que acertavam seus débitos com meses ou anos de atraso. E pasmem, sem a cobrança de juros.

Geraldo Jorge de Souza nasceu 16 de maio de 1916. Era filho de Benjamin Jorge Abdala Cussa (sírio-libanês naturalizado brasileiro) e de Maria Laudozina.

Seu pai possuía uma loja de tecidos e calçados na cidade vizinha de Guapé, e nessa época, ainda adolescente, gostava de ficar na roça de sua avó materna.

Segundo ele, seus irmãos se envergonhavam dele quando ia à cidade descalço, tocando o carro de boi, juntamente com os empregados da fazenda.

Sua família mudou-se para Campos Gerais no ano de 1937, quando parte do território de Guapé foi submerso pelas águas de Furnas. Aqui, ele ingressou no Tiro de Guerra, tendo, em seguida, conhecido sua esposa Carmem, na loja que seu pai montou, bem próxima à casa dela. Geraldo e Carmem tiveram sete filhos, sendo cinco mulheres e dois homens.

Geraldo e o irmão Hermínio trabalharam com o pai naquele estabelecimento, até que o senhor Benjamin veio a falecer.
Geraldo assumiu o empreendimento e a ele dedicou-se durante toda a sua vida.

Possuía como hobby a pescaria e o jogo de truco, diversão garantida todas as noites na casa de seu pai.

Não falhava à pescaria um domingo sequer. Canoa, varas de pescar e iscas de minhocas faziam parte dos preparativos dele e do fiel companheiro de pescaria, Joaquim Barbeiro.

Geraldo não tinha grandes aspirações, nem apegos materiais, mas dava muita importância em manter seu “nome sempre limpo”.

Usava roupas e calçados simples e andava em um carro antigo. Dava valor à atenção e consideração dos fregueses, tanto que esperava pacientemente pela venda da safra de café, para o acerto das contas na data combinada.

Quando as vendas caíam, ele dizia: “de hora em hora, Deus melhora”, tanto é que tinha ojeriza a gente pessimista. Amava viver e sempre pedia a Deus mais “uns dez anos de vida”, fato que se consumou com uma vida longa e bem vivida.
Geraldo tinha como grande virtude o bom humor, não guardava rancor de ninguém. Se algo o contrariava, desabafava colocando o sentimento “engasgado” para fora.

Nos anos 1960, sua loja funcionava na Rua Nossa Senhora do Carmo. Lá conciliava as vendas com a acolhida aos amigos e um bom bate papo. Padre Luiz Miguel, senhor Joaquim Marcelino, senhor Ílio Furbeta, Braz Pereira eram apenas alguns dos muitos amigos que frequentavam o local.

De fé inabalável, não realizava as refeições sem antes, fazer o sinal da cruz. Aos domingos, sempre ia à primeira missa. Transmitiu aos filhos o respeito e os bons hábitos, ensinando-os a guardar o lugar dele e dos mais velhos na mesa, a se servirem após os mais velhos e a não encher o prato. Esses pequenos atos marcaram a vida de quem conviveu com Geraldo Jorge, um homem distinto e íntegro, bom marido e excelente pai e irmão.

Ainda sobre a fé, um fato curioso sobre Geraldo Jorge e seus amigos. Num domingo de verão foram pescar nas Águas Verdes. Na hora de voltar para casa, já à noitinha, arrumaram as tralhas, mas o carro não “ligava”. Insistiu várias vezes, mas a “partida” não funcionava. Com fome e com frio, preocupados com as famílias que estavam esperando por eles, Geraldo teve a ideia de propor aos pescadores que, se o carro ligasse, que rezassem a oração do Pai Nosso de mãos dadas.

Todos concordaram, inclusive aqueles que pouco frequentavam a igreja. Não deu outra. Foi só virar a chave para o carro pegar. Cumpriram o combinado e voltaram para casa. Geraldo dizia que o fato serviu de reflexão para os amigos presentes naquele dia.

Interessante notar o desapego dos bens materiais. Nunca teve um cômodo próprio para sua loja. Sempre pagou aluguel na Rua Dom Inocêncio Engelk (atrás da igreja matriz), na Cel. Joaquim José de Araújo (onde funcionou a agência do Banco do Brasil) e onde está instalada a loja atualmente, também na Cel. Joaquim José de Araújo.

Sua filha, Fátima Jorge, conta que o pai nunca se preocupou ou teve receio da concorrência; pelo contrário, ele achava que os comércios do ramo serviam de estímulo para o seu crescimento.

Geraldo detestava dívidas. A maioria das suas compras era feita à vista e os descontos obtidos junto aos fornecedores eram repassados até mesmo aos clientes que compravam dele a prazo.

Pequenos vendedores de pronta entrega faziam um “chorinho”, dizendo estar sem dinheiro para voltar para casa. Então os ajudava, adquirindo seus produtos e até emprestando dinheiro para eles.

Trabalhou até que a idade avançada afetasse sua consciência. Nessa etapa, dizia “ir à escola (loja)” e que as “professoras” (as balconistas) estavam esperando por ele. Seu estado de saúde fez com que sua neta, Débora Jorge assumisse a direção da Loja.

Geraldo Jorge amou a família, os amigos e o seu ofício, que tinha como laço principal, as pessoas. Faleceu aos 97, anos no dia 11 de julho de 2013.

(Agradecimentos à Fátima Jorge e à Débora Jorge pelas informações passadas à equipe do Documentário)

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