Campos Gerais e a dupla Alvarenga e Ranchinho

Por Delson Luis Ribeiro

Uma das duplas que mais marcaram o surgimento da Música Popular Brasileira, especialmente precursora do gênero sertanejo (Moda de Viola) tinha como um dos seus integrantes, um filho da Terra. Homero de Souza Campos também contracenou com Mazzaropi no cinema nacional.

Já dizia o poeta que Campos Gerais é berço querido, é terra sem igual.

O trecho do hino a Campos Gerais mantém consonância entre a época de sua composição e os tempos decorrido/presente.

Essa “terra sem igual” é hoje motivo de gratidão e reconhecimento de inúmeras trajetórias profissionais e pessoais bem sucedidas, dentro e fora dela. Poderíamos contar muitos casos de sucesso mundo afora nos mais distintos campos de atuação, mas hoje nos ateremos a apenas uma.

Pouca gente sabe, mas uma destas figuras brilhantes foi Homero de Souza Campos, o “Ranchinho” da dupla “Alvarenga e Ranchinho”. Homero teve importantes participações no cenário artístico nacional, através da música e do cinema.

Primeiramente, para podermos compreender a bela passagem de nosso conterrâneo na construção da Música Popular Brasileira, em especial da “Moda de Viola”, é preciso trazer a lume a história desta dupla, que teve três diferentes composições.

Murilo Alvarenga, o “Alvarenga” nasceu em Itaúna MG (1911-1978) e Homero de Souza Campos, nasceu em Campos Gerais MG (1930-1997). Homero formou a terceira composição da dupla, mas foi o integrante que mais tempo cantou com Alvarenga.

O “primeiro Ranchinho”, Diésis dos Anjos Gaia, cantou com Alvarenga entre 1933 e 1938. Ausentou-se por um ano, mas acabou voltando a atuar com Alvarenga. Abandonou a dupla em 1965.

O “segundo Ranchinho”, Delamare de Abreu era irmão de Murilo Alvarenga e fez dupla com ele por apenas dois meses na década de 50.

O “terceiro Ranchinho”, o camposgeraiense era também conhecido como “Ranchinho da Viola” e como “Ranchinho II” (apesar de ter sido o “terceiro”).

O Ranchinho da Viola foi o mesmo Homero que também integrou o Trio Mineiro, gravando 12 discos de 78 RPM. Com Alvarenga, Homero gravou 15 discos, incluindo 78 RPM e LPs.

A dupla Alvarenga e Ranchinho é responsável pela precursão do gênero sertanejo nos tempos áureos do rádio, com participações nos programas de auditório das principais estações do Brasil, além de ter rápida atuação no cinema nacional.

A música sertaneja foi desenvolvida, em sua versão original, a partir dos anos 20, e ficou conhecida como “moda de viola”. Nas décadas seguintes, com o processo de urbanização do país, ampliou seus temas, antes restritos aos assuntos do campo.

Segundo informações de Anselmo Brombal, o jornalista e poeta Cornélio Pires reuniu muitas dessas “modas de viola” no livro “As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho”. Atribui-se também a Cornélio Pires a descoberta das duplas Tonico e Tinoco e Alvarenga e Ranchinho, que ao lado de outra, Tião Carreiro e Pardinho, foram as mais conhecidas de todos os tempos.

Rolando Boldrin já relembrou a trajetória de Alvarenga e Ranchinho por diversas vezes em seus consagrados programas de televisão (Som Brasil na Rede Globo e Sr. Brasil na TV Cultura), valorizando a diversidade musical destes profissionais. Nestas ocasiões, citou as marchinhas de carnaval a exemplo da música “Seu condutor”, “Êh São Paulo” (São Paulo da Garoa), “Seresta” (Meu violão em seresta).

Na emissora, Boldrin também recordou a produção de paródias pela dupla, que faziam críticas à política no Brasil em momentos distintos, inclusive do período Vargas.

Antes de fazer dupla com Alvarenga, Ranchinho fazia parte do Trio Mineiro, acabou se sendo desfeito, e Homero passou a se apresentar sozinho ora nos rádios, ora nos circos. Nesse meio veio a conhecer Amacio Mazzaropi, que estava fazendo uma temporada de shows por várias cidades do interior, para terminar a produção de seu primeiro filme autoproduzido. Tornaram-se amigos, e pouco tempo depois, Homero aparece como seu motorista e companheiro em suas apresentações, começando assim uma nova etapa em sua carreira artística.

No ano de 1959 Homero dirigia a perua que levava Mazzaropi a São Caetano SP, onde num cruzamento de avenidas, próximo ao Parque do Ibirapuera, o automóvel foi atingido por um Fusca que vinha em sentido transversal, em grande velocidade.

Mazzaropi foi o único a sair ferido do acidente, pois estava sem o cinto de segurança, sendo arremessado longe do veículo. Na queda teve fraturas expostas nos braços e lesões nas vertebras. Foi socorrido e levado ao Hospital das Clínicas, sendo transferido em seguida ao Hospital Santa Catarina. A recuperação foi rápida.

Após passado o susto do acidente, Homero recebe um convite especial de Mazzaropi, que já recuperado, prepara-se para começar as filmagens de um novo filme. O convite foi para fazer parte do elenco de “JECA TATU” (1959), no qual recebe uma espécie de homenagem, ao aparecer como o motorista de carro de aluguel, que leva o Jeca (já na cidade grande) até a mansão do Deputado, causando a maior confusão na hora de pagar a corrida. Este é o único trabalho de Homero no cinema, e também o único em que aparece usando seu nome de batismo.

Para o Documentário Campos Gerais e a cidade de Campos Gerais é motivo de grande orgulho resgatar parte da história deste ilustre filho, um artista que juntamente com os demais “Ranchinhos” e Murilo Alvarenga colaboraram para o fortalecimento da cultura brasileira. A dupla é considerada por muitos críticos, pioneira na história da MPB, tendo realizado as primeiras apresentações em programas musicais no rádio nacional e os primeiros filmes nacionais por volta de 1936.

Finalmente, vale esclarecer que este material não é conclusivo. O Documentário Campos Gerais entrou em contato com pessoas que conheceram Homero de Souza Campos e, em breve, contribuirão com novas informações sobre o artista.

Fontes de pesquisa:

  • Alvarenga e Ranchinho (intercom.org.br) – Anselmo Brombal
  • Troupe Mazzaropi: Homero de Souza Campos
  • Alvarenga e Ranchinho – Ensaio – Bloco 4 – YouTube (Programa TV Cultura)
  • “Seresta”, por Murilo Alvarenga (31/05/2012) – YouTube

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