Por Joaci Pereira Furtado (Doutor em História Social pela USP)
Construído provavelmente na primeira década do século XX, o palacete do coronel Joaquim José de Araújo foi um vistoso exemplar de residência da aristocracia fundiária do sul de Minas.
O solar, situado na rua que hoje leva o nome de seu proprietário, foi desenhado no estilo “eclético”, que floresceu no Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX, especialmente durante a República Velha (1889–1930). Caracterizou-se pela combinação de elementos de diferentes estilos históricos reinterpretados de forma livre e decorativa.
O ecletismo refletia o desejo de modernização e cosmopolitismo das elites brasileiras, que buscavam aproximar o país dos padrões europeus, sobretudo franceses. Cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Belém receberam palácios, teatros, estações ferroviárias e edifícios públicos com fachadas ornamentadas, simetria clássica e interiores luxuosos, obedecendo os padrões do estilo eclético. Entre seus marcos estão o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, o Museu Nacional de Belas Artes e o Teatro Amazonas, em Manaus, que exemplificam o uso de repertórios diversos adaptados ao contexto tropical.
Com o casarão do coronel Araújo não foi diferente.
Partindo da calçada, adentrava-se o palacete pelo portão de ferro – decorado com rocalhas nas duas folhas – de um jardim cercado por grades também trabalhadas em ferro, imitando lanças.
O jardim, relativamente pequeno, era arborizado com ciprestes, o que lhe conferia um cheiro característico e sensação de frescor. No centro, jorrava uma fonte de água com esculturas de um peixe devorando uma espécie de querubim, entre outras figuras antropomórficas, enquanto o resto da área era dividido em canteiros entre os quais se podia caminhar.
Uma escadaria, com corrimãos de alvenaria e cerca de quinze degraus, levava ao espaçoso e imponente alpendre (ou varanda), decorado com afrescos (pinturas nas paredes, em geral retratando cenas bucólicas ou da mitologia greco-romana), cujo teto era sustentando por uma colunata de capitéis coríntios (na base de cada coluna havia um medalhão decorativo), e guarnecido por balaustrada de alvenaria com balaústres vaseados – isto é, numa forma que lembra um vaso ou ânfora, com bojo central saliente. Quatro janelas da casa, arrematadas em frontão triangular, davam para essa varanda, que protegia a suntuosa porta de entrada com duas folhas, arrematada por frontão curvo.
Essa mesma varanda era coroada por cornijas encimadas por uma platibanda arrematada por acroteiros (ornamentos colocados sobre a cornija ou o frontão de edifícios, geralmente no topo e nos extremos, servindo como arremate decorativo e símbolo de distinção arquitetônica). No caso dessa mansão campos-geraiense, seu formato lembrava pilões.
A porta da varanda dava acesso a um vestíbulo — também chamado hall de entrada ou antecâmara —, que nos casarões ecléticos cumpria funções práticas, sociais e simbólicas. Servia como espaço de transição entre o exterior e o interior da casa, atenuando o contraste entre a rua e os ambientes privados, funcionando como filtro climático e acústico e oferecendo área de espera antes do ingresso nos cômodos íntimos. O vestíbulo marcava a hierarquia dos espaços e a teatralidade da chegada, simbolizando a passagem do mundo público ao privado, da rua à casa, e expressando o ideal de civilização e distinção social das elites da época.
O palacete do coronel Araújo contava com ampla sala de visita, de cujo teto pendia um lustre de cristal da Boêmia. Ao lado, uma sala de jantar, não menos ampla, de onde eram acessados os vários quartos e o corredor que levava à cozinha.
Suas portas em madeira de lei tinham maçanetas de cristal azul lapidado, e no vestíbulo havia um lavabo original de louça decorada.
Ocupando uma das quinas de um imenso terreno retangular, a planta da mansão configurava o formato de um “L”, com o ângulo na esquina da rua Coronel Joaquim José de Araújo com a Tomé Soares de Oliveira. As 23 janelas (incluindo as da varanda e excluindo as da cozinha) — compostas por duas folhas internas de abrir e vidraças externas do tipo guilhotina – que davam para a rua, arrematadas com frontões triangulares, conferiam à fachada um aspecto grandioso, senhorial, palaciano.

O porão, tão vasto quanto a casa, era habitável, certamente funcionando como dispensa do palacete, inclusive com uma série de cinco portas que davam diretamente para a rua Tomé Soares de Oliviera. Seu sólido e denso teto, em alvenaria, era ogival – técnica de construção da arquitetura gótica.
Porém, os registros acerca da história desse palacete, em sua imensa maioria orais, são imprecisos. Sabe-se vagamente que um dos artistas que trabalharam em sua construção era italiano. O certo, porém, é que o casarão se tornou hotel nos anos 1920. Mas antes dos anos 1980 já voltara a ser exclusivamente residência dos descendentes do coronel – e “seu” Joaquim Araújo, homônimo de seu ancestral, celebrizou-se como um de seus últimos moradores.
Nos anos 1990 acelerou-se o processo de delapidação e degradação do imóvel – fenômeno que vinha das décadas anteriores –, até que ele foi vendido e inteiramente demolido, em março de 2004.
Fotografias, eventuais documentos e a memória oral podem recuperar a história dessa imponente edificação que durante um século marcou a paisagem urbana de Campos Gerais.











