O Documentário Campos Gerais volta a fazer registros no quadro “Nossa Gente”, replicando nesta edição, uma coluna escrita por Maria Auxiliadora Ferreira de Souza, a Dola, no jornal Construindo a Unidade (2006). Nessa ocasião foi prestada uma bonita homenagem à família do Sr. Venturinha, memorando suas principais competências, em especial nas artes, além de feitos voluntários em favor da nossa comunidade. Na memória e no tempo.
A vida do Senhor Venturinha
Por Maria Auxiliadora Ferreira de Souza

Aquele que transforma em beleza todas as emoções, sejam de melancolia, de tristeza, de prazer ou dor, vive na perpétua alegria e na lembrança do povo.
Quem não se lembra do mestre Venturinha? Talvez você não se lembre, mas muitos e muitos de nós nos lembramos, assim como seus pais e avós se lembrarão. Era conhecido no mais distante rincão do nosso município, nas confrontações e no meio urbano.
José Antônio de Araújo, o venturinha, era filho de Dona Ercília Augusto do Prado (nada a ver com seu Juca Prado) e Antônio Cândido de Araújo. Nasceu aos treze dias do mês de fevereiro de 1907 e faleceu aos quatro dias do mês de fevereiro de 1977. Lia, escrevia e interpretava muito bem, não portava diploma, mas conhecimentos. Foi casado com Dona Palmira Rabelo de Andrade Araújo com quem teve quatro filhos: Fiinha do Julinho, Melica do Genésio, Júlio e Zezée adotou o Zezinho. Morou parte da sua vida no lugar, dois paus, onde nasceu, vindo depois residir em nossa comuna. Avô de muitos netos, dos quais um deles é bastante nosso conhecido, o argentino, Osvaldo Genésio, o qual teria herdado muitas qualidades do avô, no campo das artes e da dedicação.
Impressionante era a versatilidade das habilidades do mestre Venturinha. Ainda não nasceu outro.
Nos dois paus, onde nasceu e viveu por muitos anos, foi fantástico. Indo para Alfenas, do lado esquerdo lá está a igrejinha —– era assim que chamávamos —– erguida, testemunho das atividades e iniciativa do “Joaquim Venturinha”. Lá ele fazia festas e festas, todos os anos, para ajudar a paróquia Nossa Senhora do Carmo, uma vez que era devoto da Virgem, temente a Deus e amicíssimo do Monsenhor Teófilo Saez. Era interessante. Naquele tempo ele coordenava tudo e todos atendiam.
Fazia a novena, rezava-se o terço toda noite, rezava uma ladainha, comentava o evangelho, depois o leilão e era ele o leiloeiro. Barraca de lona e lampião a querosene. Era bacana. O povo da cidade também ia. Não era só a festa do padroeiro não. Os outros santos que a cidade comemorava, Venturinha também respondia. O foguetório não faltava, nem os biscoitos, chás e broas da dona Palmira. Que devia ter uma pacieeeência!
Com os filhos já em idade escolar mais avançada veio residir na cidade para alegria e felicidade de todos, porque foi aqui que descobrimos, ou se manifestaram – não sei – as qualidades artísticas e outras tantas do “imortal” Venturinha, que esculpia na madeira, na pedra e no barro, sem contar que era grande marceneiro e grande carpinteiro, pois confeccionava do mais luxuoso à porteira, roda de carro cheda, canga, canzil, foeiro, etc, etc, etc…
Uma vez residente no meio urbano não sei explicar se sua casa era confessionário, consultório médico, ambulatório, farmácia ou oficina. O que afirmo, com certeza total e absoluta, é que de tudo era um pouco. Frequentando as reuniões tornou-se um confrade vicentino exemplar, batalhando em favor dos pobres e da Sociedade São Vicente de Paulo, da qual foi o presidente, secretário e tesoureiro por um extenso período, quando recebeu a valorosa colaboração do seu irmão Ângelo, que durante muitos anos sustentou o Natal dos Pobres, com comida, roupas e brinquedos, para os nossos pobres. Que Deus lhe pague.

Não direi confessor, é claro, mas orientador e conselheiro amigo. Era grande homeopata e exímio extraidor de berne, larva muito comum na época. Os médicos já encaminhavam o paciente para o Venturinha e muitos deles também foram seus pacientes. Era o tempo da penicilina e da benzetacil —- novidade do pedaço —– Tá o Venturinha, correndo para baixo e para cima, com uma caixinha de metal embaixo do braço, um vidrinho de álcool e algodão nas mãos. Isto o dia inteiro e altas horas. A sua farmácia e ambulatório, se é que posso chamar assim, eram lotados: gente assentada na sala e no passeio e dona Palmira e suas auxiliares servindo café.
No final Dona Palmira já atendia o povo, fazendo as vezes do seu esposo, mestre Venturinha. Era mestre em quilometrar o tempo, porque nunca abandonou a oficina de artes. Muitas de suas obras resistem ao tempo na posse dos filhos e netos testemunhando o grande artista que foi.
Transmitiu seus conhecimentos a muitas pessoas e familiares, mas o nome que no momento me ocorre é o do nosso Osvaldo do Genésio, que herdou, de fato, os dons artísticos do avô. É genética mesmo, porque o artista nasce e depois se aperfeiçoa. O seu neto demonstra este pendor através de suas próprias obras, o que nos permite relembrar as façanhas de mestre Venturinha.
Que, relembrando as pegadas do nosso conterrâneo, outros valores possam se despertar, marcando e registrando-se na memória e no tempo.