Um lençol de petróleo de oito léguas!
(Imprensa Oficial Minas Gerais – Belo Horizonte 1926)
Texto transcrito do original sem alterações na grafia da época.
Verificada sua existência em Alfenas pelo téchnico do governo do Estado
Foi retirada uma amostra de kerozene filtrado crystalino
De máxima importância econômica, o facto do apparecimento, a pouco confirmado, de uma vasta faixa de petróleo no município de Alfenas.
Este assumpto, o dr Gomes Michaeli, enviado pelo governo Estado para apurar a verdade em torno dessa riqueza, que diziam existir alli, como realmente existe fez importantes declarações.
O dr Joaquim Gomes michaelis é um velho servidor do Estado e de uma competencia que tem sido posta em relevo no desempenho de várias commissões, dentre as quaes ressalta a do estudo da bacia carbonífera do Rio do Peixe, no Paraná.
É de lembrar-se que ao envolver-se nesta tarefa, teve a sua opinião contrariada, diversas vezes, por quem era considerado autoridade na especialidade, mas afinal os factos vieram dizer que a razão estava ao seu lado, e hoje as ricas minas estão sendo exploradas com os mais animadores resultados.
S. S. Penne com o representante de jornal carioca a seguinte palestra:
– Sabemos que vem aqui para completar as suas primeiras observações em torno do apparecimento do kerozene aqui em Campos Gerais.
Gostaríamos nos dissesse alguma a respeito.
– Cumprindo ordens do sr. dr. Secretário de Agricultura, vim a esta região, de que tanto gosto, para conhecer da denúncia que insistentemente tem sido dada, do apparecimento de kerozene. Comecei pelo município de Campo Gerais, e aqui hei, desta feita, de concluir a minha tarefa. Não posso escolher o meu entusiasmo diante do que tem encontrado. As notícias mandados para Bello Horizonte eram taes, que ninguém duvidava tivessem sido geradas por uma mystificação.
Pareciam iverossímeis, mas a realidade, agora proscreve do espírito de todos dúvidas. Colhi e trago commigo uma amostra de limpidez sem igual. Para obte-la não foi preciso grande trabalho.
– Então é o kerozene encontrado em estado natural?!
– É bellissimo como o que aqui está.
– Como foi descoberto e como poude colhei-o?
– A historia desse kerozene é muito simples. Uma criança de 5 annos foi quem o descobriu. Brincando perto de um monjolo, ao fundo da casa do sr. Alexandre Scapolini, notou que água que procurava para beber era intragavel pelo mao gosto que apresentava, e comminocou isso ao pae. Este admitiu logo a hypóthese de ester a sua fazenda sobre uma jazida de petróleo. Vulgarizada a occurrencia, fui mandado para estuda-la. Quando alcancei o local, encontrei uma cavidade feita em argila graphiosa, cheia dagua em que sobrenadava o kerozene, numa porção de 33 por certo. Para esclarecer o caso, fiz excavar um barranco um pouco acima. A principio cortava-se argila commum, mas não demorou para atingir uma argila graphiosa, que, que seccionada em certa extensão, mostrou uma especie de cylindro da mesma substancia, muito distinto, mas fendilhado.
– como é que se póde explicar esse facto que feriu a sua curiosidade de homem de sciencia?
– Duas hyphoteses eu formulou. Ou há em grande profundidade, um deposito de petroleo, que destilla, pela acção do calor do interior da terra, através do cylindro fendilhado, vindo condensar-se na parte da crosta, onde a temperatura não é bastante para mante-lo no gazoso – ou o líquido oleoginoso atravessa o cylindro, sob a pressão de uma causa interna qualquer, deixando, na passagem, as impurezas que contém, operando-se assim uma verdadeira filtração.
– Em Campos Geraes o kerozene é encontrado apenas no sítio do sr. Alexandre Scapolini?
– Appareceu já tambem em outro logar um pouco abaixo, na fazenda do sr. Lindolpho Ferreira, brotando igualmente da argila graphiosa, a margem de um corregozinho, e pessoas dignas de todo crédito affirmam terem notado o
Kerozene em uma água, na fazenda da Fortaleza, e nas imediações do povoado do Campo do Meio, onde estive também, e não observei sinão a semelhança que a entre os terrenos indigitados como petrolíferos. Encontrei na fazenda das Águas Verdes vestígios positivos de kerozene, que se prolongam pela fazenda da Atalaia.
– E aqui, O que lhe parece?
– Na fazenda do sr. Francisco Osório da Silveira há o mesmo terreno que encontrei em Campos Geraes, nos logares petrolíferos. Demais, o cheiro e o gosto do kerozene são tão pronunciados nas águas de um pastinho aos fundos da casa de morada do administrador, que os animaes recusam bebe-las. Na fazenda do senhor Artur Vilhena, facto identico se dá e se repete periodicamente.
– Conclue-se das suas observações que há nesta região diversas jazidas, não é verdade?
– A meu ver, há apenas um lençol petrolífero que se estende na fazenda de Alexandre Scapolini, numa distância em linha recta, que calculo em oito léguas.
A altitude, quasi uniforme, que varia de 640 a 760 metros e a semelhança dos terrenos são os elementos que me levam a essa conclusão. Espero que os estudos definitivos, que, certo, serão feitos, virão corroborar o que lhe estou dizendo.