Por Delson Luis Ribeiro e Colaborações: Ednaldo Reis, Joaci P. Furtado, José Raimundo de Lima e Rodrigo Ferreira.
Entre os anos de 1925 e 1927, Campos Gerais foi por várias vezes, manchete nos principais veículos de imprensa do Estado. O motivo teria sido a provável existência de petróleo em propriedades rurais do município.
Essa interessante história tem início com um fato ocorrido por volta de 1925, envolvendo um menino de cinco anos de idade, que brincava próximo a uma mina de água na propriedade do senhor Alexandre Scapolini, na região da Fortaleza.
A sede do garoto o levou a perceber que a água por ele ingerida possuía um forte gosto de petróleo e odor também intenso, despertando nele, o impulso de contar ao pai a desagradável experiência.
Tal episódio e os indícios da existência do precioso líquido, tomaram tamanha proporção, a ponto do governo do Estado, por intermédio da Secretaria de Agricultura, enviar a Campos Gerais um engenheiro experiente em pesquisas dessa natureza.
O profissional percorreu uma área de oito léguas, compreendendo territórios de Alfenas, Campos Gerais e Campo do Meio, podendo observar e coletar amostras da água contendo uma substância parecida com querosene.
O Documentário Campos Gerais trás a seguir, três matérias veiculadas em órgãos oficiais do governo estadual nos anos de 1925 e 1926, com ricos detalhes (textos transcritos do original, sem mudanças na grafia).
Até o presente momento, não foram encontradas matérias complementares, noticiando como foram findadas as expectativas lançadas a esse respeito na época.
Nossa equipe tem conversado com conterrâneos atuantes em áreas afins ao fato para que maiores esclarecimentos possam ser aqui apresentados e registrados.
Confira a seguir a primeira matéria sobre o “petróleo em Campos Gerais”:
Minas de Kerozene
(Jornal Nação Brasileira Ano III – Nº 25 – Julho de 1925)
Texto transcrito do original sem alterações na grafia da época.
O que há de mais importante para Campos Gerais, é a recente descoberta de terrenosa petrolíferos em varios pontos ao derredor da cidade.
Na Barreira um menino de 4 annos, filho do Sr. Alexandre Scatoline, italiano, residente, ha muito, no Brasil, onde constitui família, viu que brotava kerozene puro, crystalino, à flor da terra; dias depois, na fazenda annexa, do senhor Lindolfo Martins de Lima começou a correr também o precioso líquido, em um poço de meio metro, mais ou menos, que o proprietário fizera, levado pela similhança do outro poço, primeiro Apparecido e adaptado.
Graças ao Pharm. Meinberg, veio, então, por ordem do Governo de Minas, o dr. Joaquim Gomes Michaelis, mineralogista consagrado pelo saber e probidade profissional, que abriu sob suas vistas, novo posto no local e… constatou, com imenso júbilo, o aparecimento, primeiro de barro cheirando a kerozene e, em seguida, gotas desse líquido brotando nas bordas do fosso, a poucos centímetros da superfície.
O enthusiasmo do sábio engenheiro fôra tanto maior porque havia elle admitido a hypothese do kerozene na natureza, que aliás, dizem, se encontra na Allemanha e em numa unica mina, isso diante do scepiticismo de alguns collegas seus.
O dr. Michaelis, diante do facto, teve de aplicar a hypothese scientifica, que é, si a bem apanhamos, a do petroleo, pelo calor das baixas camadas subterraneas, subir como que distillado pelas frinchas da terra, em estado gasoso, para, ante o abaixamento da teperatura da superficie, liquifazer-se pela condensação. A terra representa, assim, o papel de um alambique.
Lá estão na Barreira, onde se vai de automovel, os poços onde qualquer visitante, que os tem havido em numero crescente, extrahirá certa quantidade do liquido, na flor da terra, por assim dizer.
Em varios outyros pontos como na Fortaleza, nas propriedades dos Srs. F. J. Rabello Junior. Joaquim Maximiano de Oliveira, etc., o notavel tecnico estudou o aspecto do terreno, asseverando a possibilidade, quiçá certeza, de se extender por esses terrenos um vastissimo lençol petrolifero que ultrapassará, pelos signaes, os arraiaes do municipio.
Na justificação do regulamento sobre as minas do paiz, a que se refere o decreto federal n. 15211 de 28 de dezembro de 1901, o então Ministro Simão Lopes, dizia em tratando dos mineraes não metalicos combustiveis fossesis: solidos, carvão e suas variedades; liquidos-os petroleos: e gazozos ou gases naturaes.
Petroleo. Pela sua alta importancia mundial, esta especie de jazida requer uma legislação especial, que, por certo, será estabelecida no dia feliz em que encontrarmos o primeiro poço petrolifero.
Há esperanças a esse respeito e o Governo não tem poupado esforços nesse sentido.
Demais as condições são tão varias na distribuição dessas fontes de riqueza, que melhor é esperar pelo conhecimento das nossas condições especiaes.
No causo, a região mais rica do mundo, um poço chega a produzir 70.000 barris (10.000 toneladas) e até mesmo 126.000 barris (18.000 toneladas) por dia, etc.
Vê-se, dahi, que ha cerca de 4 annos, ainda a palavra official esperava o dia feliz do apparecimento do petroleo, que, com as minas de kerozene brotando á flor da terra, em Campos Gerais, vem, fóra de duvida, marcar nova era para o Brasil, quanto ás finanças, pela influencia no cambio (diminuição da importação) nas industrias, etc.
Constituiu-se uma sociedade, nesta cidade, composta do Cel. Joaquim José de Araujo, Jorge Meimberg, Dr. Alfredo Barbalho Cavalcanti, Dr. Alexandro Mariano e Luiz Rabello, com a intensão patriotica de garantir a exploração das minas e com o necessario carater nacionalista, para o que vão ainda incorporar outros nomes, tendo adquirido já, por contracto, o Direito de exploração sobre quasi todos os terrenos, nomeadamente os do Sr. Lindolpho, já referido, onde appareceu kerozene puro, á flor da terra. Brevemente tambem lançarão uma grande Sociedade Anonyma para tal fim.