O Caso da “Morte” de Mário

O livro “Olhos D’Água” do camposgeraiense Geraldo de Andrade, publicado em 1998, traz registros da sua vida pessoal e profissional, envolvendo amigos, colegas e familiares em Campos Gerais e nas cidades onde morou.

O Documentário Campos Gerais teve acesso à obra de Geraldo de Andrade e traz a seguir um curioso caso contado por Geraldo, daquelas histórias raras e com grandes coincidências.

Vale a pena conferir…
(Contribuição: Delson Luis Ribeiro e Maria José Ferreira de Souza)

O CASO DA “MORTE” DE MÁRIO
(OLHOS D’ÁGUA: MEMÓRIAS DE UMA MISSÃO CUMPRIDA – Livro de Geraldo de Andrade – Ano 1998)
Para Mário Quintana, “mentira é a verdade que não aconteceu”, circunlóquio pelo qual a mentira poderia constituir a pura verdade, bastando que tivesse acontecido. O que vou relatar – e não “contar” porque se trata de um fato e não de uma estória – vale por refletir rigorosamente a verdade, já que não oferece nada de sobrenatural ou fantasmagórico. Uma verdade realmente acontecida, como podem comprovar os jornais da época que se ocuparam do episódio.

Chegando em casa num início de noite de janeiro de 1973, minha mulher preveniu-me que não guardasse o carro, pois iríamos apanhar seus pais e seguir para o Hospital do Pronto Socorro, onde se encontrava seu tio Mário, que havia sentido mal e falecido no encerramento do seminário de prefeitos que se realizava em Belo Horizonte. O policial de plantão no HPS foi prontamente apontando a maca, logo à entrada, onde jazia o Mário: “Já chegou morto.” Autoridades ligadas ao evento de que Mário participava, sob o impacto do indesejado fato, asseguravam a pronta assistência proporcionada e a disposição de colaborar inclusive no transporte do corpo até nossa terra, a essa altura já traumatizada pela notícia insistentemente repetida pelas emissoras de rádio. O prefeito do qual Mário era secretário inspirava cuidados: idade avançada, homem simples e sincero, estava inconformado e bastante abalado emocionalmente. De fato, fora ele que acolhera e identificara aquele participante do seminário, logo após a queda abrupta, bradando: “É o Mário, o meu secretário, está morto!”. Tendo meu cunhado mais atrás, fui até o morto e levantei o lençol que o cobria, de soslaio, o tempo suficiente para vislumbrar, naquele canto penumbroso, o rosto moreno, encimado por cabelos pretos e lisos, alterado pelos olhos arregalados e a boca escancarada no ríctus da dor fulminante do enfarte.

Minha sogra dispôs-se, chorosamente, a fornecer os dados para a feitura do atestado de óbito pelo próprio médico-dirigente do HPS, enquanto o prefeito e meu cunhado foram ao hotel onde Mário estava hospedado, a fim de acertar as contas e apanhar seus objetivos. Acompanhei meu sogro até uma empresa funerária, onde adquirimos uma urna, optando por uma de cor caramelo, simples – “ao jeito do Mário”, ponderou meu sogro. As autoridades, solidárias, não arredaram pé do HPS.

De repente chegam meu cunhado e o prefeito: “Parem tudo, o Mário está vivo, nós o encontramos no hotel.” E contaram do susto que levaram ao entrarem no hotel e enxergarem o Mário na sala de televisão, aguardando, talvez, o noticiário que daria sua morte. Tanto assustou-se Mário com a confusão envolvendo seu falecimento, que acharam conveniente leva-lo para o apartamento de meu sogro. O dirigente do HPS rasgou o atestado de óbito e as autoridades se despediram cansadas, depois de liberarem o motorista que transportaria o corpo. As providências com o efetivo defunto – até então não identificado – ficariam para o dia seguinte. O prefeito estava feliz e ao mesmo tempo constrangido, insistindo: “Até a camisa era igualzinha”, para justificar o equívoco. Providenciamos a devolução da urna, indenizando a firma. Fomos para a casa aliviados, porém penalizados com o destino daquele “verdadeiro” morto que foi posteriormente identificado como sendo vereador em Espinosa. A notícia verdadeira provocou em nossa terra a suspensão de todos os preparativos do velório e do sepultamento, com a dispersão dos amigos e o retorno dos móveis da casa do Mário à disposição normal. De volta, Mário seria naturalmente alvo das diversas brincadeiras, mas aquela lembrança que lhe causava estranha e desagradável sensação: a de que estivera morto, pelo menos para quase todos que conheciam. Felizmente, o bom Mário continua em nosso meio, torcendo pelo Flamengo.”

Infelizmente, Mário Cavalcanti Fernandes deixou nosso meio, há pouco.

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