Desastre nos aviões

Por Marco Aurélio de Medeiros

Joaquim “Cebola” já estava longe de Campos Gerais e da sua “Lilí” há quase dois meses no insano trabalho de pulverizar paióis e residências da região com uma mistura mágica e secreta (nem sempre muito benta, mas com muita água), que garantia ser uma beleza contra pulgas, cupins, baratas, percevejos e outros “animais domésticos”. Serviço garantido, como garantia o “Cebola”.

Daquela vez, como hábito, o acompanhava o fiel “Pitoco”, um vira-latas ensinado e amigo de todas as horas. Diziam os mais chegados que os dois eram amigos até no copo, pois não raras vezes “Cebola” e “Pitoco” foram vistos, indo para casa, no maior pileque.

Também o “Terré”, um baita d’um crioulo com quase dois metros de altura, cuja principal característica era um “par de beiços” de fazer inveja, e o “João da Bolsa” acompanhavam “Cebola” na condição de ajudantes naquela guerra aquática contra as pragas.

Chegando à Varginha, como o faturamento tinha sido bom e a saudade da “Lilí” apertando cada vez mais, Joaquim “Cebola” resolveu fretar dois “teco-tecos” no aeroclube local para levar o grupo até o “ Cangerê ” (Campos Gerais para os da Terra) e chegar mais depressa em casa.

Em um avião foi o “Cebola” e o inseparável “Pitoco” e no outro, o “Terré” e o “João da Bolsa”.
A viagem transcorreu num “céu de brigadeiro”.

Chegando no “Cangerê ”, como de costume, os aviões deram vários vôos rasantes sobre a cidade, sinal combinado para que algum carro de praça fosse até o campo de pouso, distante uns cinco quilômetros, buscar os que chegavam.

Acontece que a cidade estava tensa. O médico Dr. Alfredo, respeitado chefe político, pai da pobreza, culto, latinista, estava seriamente doente e, na voz dos adversários, sem qualquer esperança de cura.

Todos estavam inquietos – correligionários políticos e adversários. E, logo que viram os dois aviões sobrevoando a cidade, se alvoroçaram mais ainda.

-É o Governador, diziam uns.

-Deputados que vieram visitar o chefe político doente, arriscavam outros.

Os mais afoitos chegaram a admitir ser algum enviado do Presidente da República, acompanhado de assessores.
Num ponto, porém, todos concordavam serem pessoas importantes que chegavam para uma visita de solidariedade e conforto ao dr. Alfredo.

Alegraram-se os correligionários do PSD porque se tratava de viva demonstração de prestígio do velho líder e de força política do partido. Entristeceram-se os adversários filiados à inquieta UDN.

Atendendo ao sinal combinado, não apenas um, mas vários correligionários e amigos do dr. Alfredo se dirigiram para o “aeroporto” a fim de recepcionarem condignamente os ilustres visitantes.

Alguns, apesar da estrada poeirenta, ainda chegaram a passar um espanador no carro na esperança de ter a honra de conduzir alguma das “autoridades”. Outros vestiram às pressas o “terno de missa” e ainda arriscaram levar as esposas mais corajosas, mesmo com o vestido novo um pouco amarrotado.

Ninguém queria perder aquela recepção. Chegou-se a contar trinta carros em direção ao campo de pouso, levantando considerável nuvem de poeira que contribuiu para atrasar a aterrissagem por mais de quinze minutos.

Já no “campo”, uma comitiva de recepção foi organizada às pressas. O Lauro faria o discurso de boas vindas e o “Lico” traria os visitantes para a cidade no seu “Chevrolet” 1949, o mais novo e limpo dos que ali estavam.

Assentada a poeira, após as manobras de praxe, desceram os dois “teco-teco” levantando outra enorme nuvem de poeira que serviu para uniformizar todos que ali estavam. Parecia que todo mundo vestia roupa cáqui.

Naquela altura o Lauro, que não parava de tossir, procurava doido um copo d’água, pois engolira tanta poeira que não mais se julgava em condições de discursar.

O carro do “Lico”, que tinha esquecido de fechar os vidros das portas, parecia ter aspirado toda a poeira levantada para o interior do mesmo.

“Rubão”, um mulato roliço, lustroso e enjoado, ficara ruço.

Desligados os motores, dissipada a nuvem de poeira, eis que as portas dos aviões se abrem.

Expectativa. Alguém ainda teve tempo de lamentar a ausência da “Lira Nossa Senhora do Carmo” e de ter esquecido de levar uns foguetes.

Surpreso, com um sorriso de orelha a orelha e já bastante “sapecado”, Joaquim “Cebola” desce do primeiro avião seguido de “Pitoco”, enquanto que o “Terré”, ainda meio zonzo pois vomitara durante a viagem inteira, e o “João da Bolsa” desciam do outro.

A alegria do “Cebola” logo terminou. Ao constatarem quem eram os “ilustres visitantes”, num misto de decepção e fúria o comitê se dispersou com a velocidade de um raio. Cada um entrou o mais rápido que pode no seu carro e retornou para a cidade, deixando atônitos o “Cebola” e sua “gang” no campo de aviação.

Sem entenderem bulhufas do que tinha acontecido, tiveram eles que caminhar até a cidade, “comendo” uma poeira danada e arfando debaixo da tralha que conduziam.

MARCO AURÉLIO DE MEDEIROS

Dr. Marco Aurélio trabalhou como juiz de direito em Campos Gerais no início da década de 1980

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